O inverno no Rio Grande é uma coisa maravilhosa. Rigoroso, bem rigoroso nesta última semana, particularmente. Gosto de escutar aquelas pessoas que fazem questão de dizer que adoram o frio: "aquele foguinho na lareira, assistir um filmezinho debaixo das cobertas, apreciar sopas e cremes que te deixam bem quentinhos... Não. Você não gosta de frio. Gosta de calor. Ora.
Mas tem dois momentos que resumem o que há de melhor no inverno: a hora de ir pra cama e a hora de acordar.
A hora de ir pra cama
Você chega em casa e já repara naquela montanha de cobertas, cobertor, edredon, lençol - cuja altura quase alcança a lâmpada do teto (o que é bom, porque ajuda a aquecer), mas você percebe que nem assim o colchão esquenta (aparentemente o aquecimento depende do calor de seu corpo...fato venéreo). Ou seja, coloca-se a maior quantidade de roupas possíveis para este 1º estágio, o de conseguir levantar as cobertas e poder inserir-se debaixo delas, afinal de contas, não é qualquer um que consegue dormir sobre uma barra de gelo. Uma vez instalado sob montanha, o bagulho começa esquentar e você sente aquele prazer de estar aquecido... 5 minutos depois começa a se remexer (se for possível se remexer debaixo de 132 kg - de coberta, ora!). Tá quente aqui. Mais 5 minutos e você já está semi nu, só de meias porque seus pés insistem em não fazer parte do seu corpo já aquecido, mas logo que eles esquentam (lá pelas 3 da madrugada). Começa a bater aquele suador. E você decide se livrar das meias também.
E então acontece uma das coisas mais temidas nas madrugadas de inverno... você precisa ir ao banheiro. Sabe como é que é. Tomou uma, duas, três cervejinhas pra dormir tranquilo, mas seu organismo fatalmente cobra o preço - começa a sonhar que realmente está no banheiro... Uma hora você acorda, geralmente quando sente que algo está errado, e aquela primeira gota conseguiu escapar...
Tenso, inicia cálculos mentais sobre o tempo necessário para chegar até o WC (2,3 seg), fazer o que tem que fazer (5,2 min - lembre-se que você tomou aquelas cervejinhas) e voltar (0,2 seg) para aquilo que se tornou a coisa mais importante de sua vida: a cama. Depois de muita matemática, resolve que não vale a pena voltar a vestir a roupa para atingir seu objetivo. Azar. Vamos lá! Cheio de coragem, levanta as cobertas com um só movimento e, em um passe de mágica, está lá!
Nessas horas, depois do choque térmico sofrido (equivalente a tomar uma surra de tamanco da sua mãe - lembra?) nosso cérebro ativa todos os mecanismos de defesa possíveis para lhe dar condições de cumprir essa missão. Na verdade ele está agonizando e perguntando: O que que esse débil mental está fazendo dentro da geladeira?!.
Missão cumprida.
O trajeto da ida/volta do banheiro já foi o suficiente para sua temperatura corporal atingir o estágio de hipotermia.
Corre pra baixo das cobertas, louco pra compartilhar o calor de sua esposa amada e dá aquela cutucada com seu pé semi congelado na panturrilha dela. O coice quem vem a seguir proporciona uma das maiores dores que um ser humano (me refiro ao ser humano gênero masculino) pode aguentar (sabe quando bate seu dedo em algum lugar quando está muito frio?). A quantidade e a qualidade dos impropérios que saem da boca desta mulher, que você julgava delicada e querida, você não teria coragem de pronunciar no estádio lotado em final de gauchão (time perdendo e talecoisa)... e em seguida, ela volta a dormir, como se nada tivesse acontecido.
Você tenta pegar no sono novamente, esfregando o joelho e rezando para que tenha, no mínimo, mais uma meia horinha de sono. E é aí que você ouve o som do despertador....
Mas essa é uma outra história :)
Os eventos descritos acima são fictícios, mas baseados em "fatos reais". Qualquer semelhança com qualquer pessoa que viva ou morta é mera coincidência. ;)